Ser contra a anistia é uma coisa, mas já passamos da fase de ignorar a discussão

Não sou a favor da anistia, muito menos a “ampla, geral e irrestrita”. Agora, se a discussão envolver a dosimetria de penas, é possível conversar. Por outro lado, não dá para fechar os olhos e ignorar que o tema tem tensionado o país, com estímulos a uma polarização “fake”, que nada mais é que apologia ao discurso de ódio e violência, e que um dos lados tem feito da anistia, palanque eleitoral para cooptação de votos.

Poderia se ignorar tudo isso? Sim. Mas, já passamos da fase de ignorar que a discussão precisa acontecer. Não porque todos são “santos”, o que de longe serão.

Muito tem se falado sobre a conduta do presidente da Câmara Federal, o paraibano Hugo Motta, que colocou a proposta para votação. Seria muito fácil jogar o tema na gaveta e “deixar para lá”. Mas… não seria. Chegou-se a um ponto que não há mais o que fazer.

Por outro lado, esse tema ‘anistia’ não deveria ser usado como justificativa para travar pautas importantes do país, a exemplo da votação da proposta que amplia a isenção do Imposto de Renda, afora outros temas urgentes. Os eleitores devem e cobrarão a fatura em 2026.

Agora, o que Hugo precisa fazer é usar da sua capacidade de articulação e mediação e construir um texto sem protecionismos a quem estimulou e financiou a tentativa de golpe de estado. E, sem passar pano para quem quer que seja. Por que quem garante que não farão novamente? Ninguém.

Em uma visão fria, há quem discorde, mas há de se respeitar, Hugo, ao que me parece, seria um dos poucos parlamentares a ter sangue frio, nesse momento de polarização, a fazer essa construção. Pode parecer que não, porque muitas assistimos de fora e temos um lado – não adianta negar – e queremos tapas na mesa, mas Hugo já mostrou ter habilidade em dialogar com os diferentes. Que a use.

Por outro lado, não adianta o presidente da Câmara buscar um meio-termo se o PL e os partidos do Centrão, por exemplo, continuarem a passar a mão no deputado federal Eduardo Bolsonaro, que poderia muito bem ser taxado como um “patriota às avessas”, tramando sim contra o Brasil.

Ninguém tem venda nos olhos para achar que isso é normal ou que o 8 de janeiro foi uma simples manifestação. Nunca será. Não tentem convencer do contrário. Não foi alucinação, foi real.

Se perguntem: onde estavam os políticos que estimularam os protestos naquele dia? Em casa, assistindo pela TV. Olhem como foi fácil se safar. Depois, usaram as redes sociais para criticar aqueles que antes aplaudiam. Grandes companheiros esses, não é mesmo.

Ao final da votação da urgência, Hugo usou as redes sociais para se posicionar. “O Brasil precisa de pacificação e de um futuro construído em bases de diálogo e respeito. O país precisa andar”, escreveu.

E complementou: “Temos na Casa visões distintas e interesses divergentes sobre os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. Cabe ao Plenário, soberano, decidir”.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil