Maioria nas urnas e ausentes na bancada: onde estão as mulheres da Paraíba na Câmara Federal?

Na Paraíba, um dado deveria provocar uma profunda reflexão dentro do debate eleitoral: das 12 cadeiras destinadas ao estado na Câmara Federal, nenhuma é ocupada por uma mulher. E isso acontece em um eleitorado no qual as mulheres representam 53% dos votantes, segundo dados do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba. Ou seja, onde as mulheres são maioria, a bancada federal paraibana é 100% masculina.

A pergunta que não quer calar: como se explica que mais da metade dos eleitores de um estado não tenha uma representante ocupando uma dessas cadeiras?

A resposta está em muito discurso por parte dos partidos e dos políticos e apoio da boca para fora. Poucas têm conseguido furar a bolha.

A questão ganha ainda mais peso quando se observa a quantidade de projetos que chegam à Câmara tratando diretamente de problemas que fazem parte da realidade das mulheres e que não contam com apoio de políticos homens. Em maio de 2023, por exemplo, durante a votação do PL 1.085/2023, que estabeleceu medidas para promover a igualdade salarial entre homens e mulheres, o deputado paraibano Cabo Gilberto Silva, que é líder da oposição na Câmara, votou contra a proposta, aprovada por 325 votos a 36.

Na ocasião, ele justificou à imprensa que a igualdade salarial já estaria garantida pela CLT. O episódio mostra que, além de ocupar espaço, a representação política também interfere no debate, na votação e na construção das políticas públicas. Esse é apenas um dos inúmeros exemplos de propostas em que as mulheres não têm voz.

Na campanha eleitoral deste ano, uma dos nomes que têm se destacado na disputa por vagas na Câmara é a ex-deputada Pollyanna Werton, do PP. Disputou uma vaga ao Senado nas eleições de 2022, entrou literalmente às vésperas do prazo final das convenções e surpreendeu em meio a uma campanha marcada por misoginia. Ficou em segundo lugar com mais de 450 mil votos. É um patrimônio eleitoral que não pode ser ignorado quando se analisa a disputa atual.

Com passagem por espaços nacionais de debate, a progressista construiu uma trajetória política marcada por iniciativas voltadas às mulheres. Entre elas, estão a Lei nº 12.364/22, que proíbe a exigência de consentimento do companheiro para inserção de DIU por planos e seguros privados de saúde suplementar, e a Lei nº 12.064.

Outra marca de Pollyanna é o trânsito político, além de ter um “cabo eleitoral” de peso: o presidente Lula. Pesquisas eleitorais mais recentes colocam Pollyanna no radar da disputa por uma das 12 vagas da Câmara.

E aqui não se trata de votar em uma mulher apenas por votar. A questão é identificar se existe, entre as candidaturas femininas, uma com trajetória, experiência política, inserção regional e condições eleitorais para quebrar um jejum que já dura duas legislaturas.

A ausência de mulheres na bancada da Paraíba na Câmara chega até a ser incômoda. Talvez seja hora de deixar de tratar essa ausência como uma espécie de normalidade política. Porque, quando 53% do eleitorado são mulheres e 0% das cadeiras federais são ocupadas por elas, existe aí mais do que uma estatística. Existe um questionamento que as urnas terão de responder: até quando essa conta continuará fechando desse jeito?

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